Texto por Hugo Veikon e Léo Quipapá
Fotos por Hugo Veikon e Douglas Fagner

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Nem precisamos mais apresentar o Abril Pro Rock a nosso público leitor, então vamos direto às bandas que fizeram parte do cast.

Os pernambucanos do LEPRA subiram no palco como um power trio (a banda já foi quarteto), e o baixista Ítalo Ramos assumiu a responsabilidade de Domingos, que se mostrava um ótimo frontman para o estilo, embora aparentasse estar preocupado com a reação do público. A banda toda arregaçou as mangas e, como disse o atual frontman: O underground vive, hoje! (se referindo da inclusão de banda underground no festival APR). Então eles mostraram seu Grindcore, que ora soava como thrash metal. Pra quem acompanha esta banda viu uma grande evolução que garantiu aplausos nas primeiras músicas. Quando mandaram “O Mal Predomina”, o pequeno público (se comparada ao tamanho da casa) já abriu a roda de pogo. Sem pausa alguma, eles já mandaram “Acabe com sua Vida”, assim como a anterior, ambas são da demo de 2012. Pra fechar tocaram “Do berço ao Apocalipse”. Com um setlist de aproximadamente 20min, podemos dizer que valeu muito a pena a banda ter se apresentado como também pra o público vê-los em comemoração aos 10 anos de luta. 

E mais uma vez uma banda do Rio Grande do Norte detonou no palco do APR. Nesta edição foi a vez da banda CATÄRRÖ, com seus pés descalços ou de chinelo (na humildade), que deu continuidade na pegada da banda de abertura e desfilou seu grindcore sujo. Quem viu o vocalista Pedro com expressões corporais parou por alguns minutos. O som era veloz e eles juntavam uma música a outra (como eles mesmo se apresentaram – som fuleragem – no bom sentido), mas era só possível entender os verbos quando Pedro anunciava as músicas, ou recitava seus pensamentos muito bem refletidos. Quem entendeu o som dos caras curtiu muito o show. 

Era vez de mais uma prata da casa e a HATE EMBRACE veio com seu Death Metal e temas regionais (lembrando que os temas se concentram apenas nas letras, porque as parte musicais são de total brutalidade). O quinteto lançou o segundo cd, "Sertão Saga", e foi este trabalho que direcionou o setlist. O público teve uma ótima receptividade  para com a banda e isso é muito importante, principalmente por ser uma banda que toca em várias casas underground e com um público específico sem a mesma receptividade. Acredito que isso mostrou a banda que eles estão no caminho certo. Eles tiveram um bom tempo de palco e embora eu tenha achado o som um pouco saturado como foi de muitas bandas (A partir da terceira em diante) e o backing vocal do baterista Necrogod estava mais alto que do vocalista George, mas souberam aproveitar bem. 

Hora do ALMAH, que veio agradar o público que curte o Heavy Melódico. A banda ficou num horário meio descolado, porque ficou depois de uma banda de Death Metal e antes da Gangrena Gasosa e seu Saravá metal. Fizeram vários duelos de guitarras, Edu Falaschi caprichou nos agudos, mas o público não se mostrou tão empolgado com a apresentação da banda. Apesar de serem ótimos músicos, o virtuosismo não parecia ser o interesse do público. Até tocaram uma música do Angra (Heroes of Sand), momento que mais arrancaram coro do público. 

Como falamos, era hora do Saravá metal e o GANGRENA GASOSA veio exaltar o nome das entidades brasileiras. Eles são de fato uns personagens em cima do palco que mesclam metal com sons tribais (algo que o Sepultura já abordou anos passados). Eles mostraram que já deveriam ter tocado no Recife faz tempo, pois a quantidade de headbangers que agitaram com eles foi realmente surpreendente, até foi o maior coro que exaltou o nome de Satanás. Iniciaram os trabalhos com "Surf Iemanjá" e já ganharam o público de cara. No palco tinha de tudo: fogo, integrantes caracterizados como entidades do candomblé, percussão e oferenda. Quando o vocalista Angelo Arede (que até já tocou no Dorsal Atlântica e gravou o baixo no cd 'Straight' de 1994) chamou "Quem gosta de Iron Maiden também gosta de KLB" aflorou o sarcasmo da banda para a ira dos puritanos. Como nas demais bandas, o som estava muito saturado e a guitarra ‘xiava’ bastante, às vezes até incomodando. Como tradição dos shows dos caras, em "Centro do Pica-Pau Amarelo" os caras jogaram as oferendas no público, para o êxtase da galera. 

Eis que era hora de uma das bandas mais esperadas da noite, de acordo com uma enquete feita por nós do Arena Metal: HEADHUNTER DEATH CULT! Eles subiram no palco pra honrar o nome do Death Metal Nordestino, bandeira levantada pelo frontman Sérgio. A intro rolou, como sempre, com os integrantes de costas para o público. Apesar do som ainda estar meio saturado, pareceu que ficou mais inteligível. E começar o setlist com músicas do último lançamento ‘...in Unholy Mourning..., desejando um mundo sem Deus, sem Cristo e sem igreja, foi assim que eles começaram com a música “Dawn of Heresy” e ainda mandaram a clássica ‘...and the Sky Turns to ‘FUCKING’ Black...’ como Sérgio a renomeou naquele momento. Já deu pra sentir o poderio que foi a noite do APR com a participação desses insanos, que estavam à vontade no palco e com o guitarrista Paulo Lisboa duelando com os demais músicos. A banda saciou, de fato, muitos que estavam lá pra vê-los. 

O PROJECT 46 veio com seu som moderno, mas muito repetitivo. Uma parte da galera até curtiu, mas é uma banda que se espelha muito no fadado new metal. Um fato que deu um up no show dos caras foi o momento em que o pernambucano Antônio Araújo, guitarrista do Korzus e amigo deles participou de uma das faixas. A galera foi ao delírio, principalmente quando Antônio pediu ao público que mostrasse a Caio MacBeserra (vocalista) a maior roda do nordeste. A banda tocou músicas do seu primeiro Full, tais como “Dor” e “Acorda pra Vida” e lógico não poderia deixar de trabalhar em cima do seu último lançamento de 2014, intitulado 'Que Seja Feita a Vossa Vontade’. 

Em seguida, veio aquela que foi a maior distorção na programação do festival: o Dead Fish! Por mais que queira se dizer que os caras são hardcore, eu digo que são, no máximo, uma banda de punk melódico. O longo set desagradou muita gente, que estava sedenta por mais agitação. 

Falar de um show do RDP é meio que chover no molhado, pois os caras raramente fazem feio e esse foi mais um show memorável. O som finalmente deu uma melhorada e os caras soltaram o pé no acelerador. Jão tem umas palhetadas nervosas, perfeitas para o crossover da banda. Boka é um show à parte e muito bem escudado pelo baixo de Juninho e, controvérsias à parte, Gordo ainda é um dos melhores frontmen do país, pois sabe trazer a galera pra junto da banda. Começaram a pancadaria com “Conflito Violento” e “Viciado Digital”, dois sons do mais novo álbum, Século Sinistro e daí em diante foram só clássicos e algumas surpresas. Em “Crucificados pelo Sistema” o baixo de Juninho apresentou problemas, mas foi rapidamente resolvido pela equipe, tanto que na faixa seguinte (“Herança”) o trovão tava ativo novamente. Poderia dizer que esta faixa, “Não me Importo” e “Diet Paranoia” foram faixas que surpreenderam no set. Ao todo foram 20 faixas e finalizaram com a marca da qualidade do RDP. 

A tão esperada volta do CÂMBIO NEGRO HC aos palcos, infelizmente foi prejudicada tanto pelo som (que voltou a oscilar) como pela ordem do cast. Sejamos sinceros que tocar depois do RDP seria uma tarefa pra lá de desafiadora. Mas Nino (baterista e fundador da banda), escudado por Ajax no vocal, Marcos na guitarra e Jean no baixo fizeram um show que arrancou lágrimas de alguns presentes. Anunciado como show comemorativo aos 25 anos do lançamento do primeiro disco dos caras, intitulado “O Espelho dos Deuses”, sinceramente eu esperava a execução na íntegra do mesmo, mas a banda mesclou clássicos como “A Ordem”, “Ao Filho do Homem”, “O Ecologista Morto”, “Farsa”, “Reatores” e “Programados para Morrer” com a nova “Destrói”. Um momento histórico para ficar em nossas lembranças.

O show seguinte prometia! Na estrada desde os anos 80, os suíços do CORONER chegaram com seu técnico Thrash Metal e uma certa frieza com o público. O trio, formado por Ron Royce no baixo e vocal, Tommy Baron na guitarra e pelo ótimo baterista Diego Rapacchietti não mediu esforços em nos brindar com um set que estava revisitando toda a discografia dos caras. Destaco “Tunnel of Pain” do No More Color de 1989, “Internal Conflicts” do Grim de 1993 e “Semtex of Revolution” do Mental Vortex de 1991. Pouco antes de “Masked Jackal”, do Punishment for Decadence de 1988, o som da guitarra falhou e Tommy avisou que aquela seria a última música do set. Poucos entenderam a atitude e a banda até iniciou a música, mas o cara largou o instrumento, xingou a equipe de apoio e saiu do palco. Profissionalmente os demais terminaram a música e saíram do palco. Mas ficou um sentimento de insatisfação e desrespeito ao público. 

O último show da noite também prometia por vários motivos. Pela primeira vez no Abril Pro Rock teríamos uma banda de black metal. Esta honra coube aos suecos do MARDUK, com seus mais de 25 anos de lançamentos ininterruptos e de extrema qualidade. Assim que o (ótimo) baterista Frederik posicionou-se em seu kit um clima de guerra pairou no ar. A iluminação do palco passou a ser mais densa e sons de campos de batalha introduziram o show. Em seguida, surgiram o guitarrista fundador Morgan, o baixista de longa data Devo e o vocalista Mortuus para iniciar os trabalhos com a faixa-título do mais recente trabalho deles, Frontschwein. Mas o som teimou em falhar. Logo na segunda música eu acho que esqueceram de desligar o chato bg dos sons de guerra (que entrava após o final de cada uma das músicas do set) e isso embolou a música, que mais parecia um som eletrônico, para quem ouvia de longe. Foi aí que Morgan esboçou uma insatisfação e até temi que algo similar ao que o Coroner fez tornasse a acontecer, pois um dos roadies passou umas três vezes em direção à mesa principal e discutiu feio para alinharem o som. Após estes ajustes, o show voltou a seu normal e transcorreu bem. Os caras usaram uma tática similar ao Coroner e mesclaram músicas de diversas fases. Particularmente gostei das execuções de “Serpent Sermon”, do álbum de mesmo nome, de 2012, “Between the Wolf-Packs” do mais novo album, “Burn my Coffin” e “Infernal Eternal”, do Heaven Shall Burn de 1996 e “Those the Unlight”, de 1993 como também achei que faltaram algumas músicas, mas, no geral, acredito que o show agradou a quem suportou o calor, o cansaço e o som saturado até o final.

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