A banda TRATOR BR, que atua no interior de São Paulo, lançou em 2008 um grandioso material no segmento Death / Thrash esse álbum recebeu o nome de Verde, Amarelo, Azul e Preto. Você pode ter algum preconceito pelo nome da banda, talvez também pelo título do material e os nomes das músicas, pois aqui tudo é em português, mas na verdade o que se ouve aqui é um material digno de Metal Nacional brasileiro. Entrevistamos a TRATOR BR e aqui vamos talvez apresentar para algumas pessoas ou talvez atualizar outros.

Arena Metal: É sempre um prazer e honra conseguir entrevistar uma banda que se destaca independentemente no mercado fonográfico do Heavy Metal brasileiro e a TRATOR BR é uma dessas. Visto isso, gostaria que você nos falasse qual foi o resultado do CD Verda Amarelo Azul e Preto (VAAP).
TRATOR BR: Saudações Hugo! Saiba que a recíproca é verdadeira, e para nós é igualmente um grande prazer compartilhar e colaborar com iniciativas como a do ARENA METAL. Portanto, desde já agradecemos o comentário, e principalmente, o espaço cedido pelo site para esta entrevista. O “Verde Amarelo Azul e Preto” (VAAP), serviu como um verdadeiro ‘cartão de visitas’ para o Trator, já que foi a primeira gravação oficialmente registrada, lançada e divulgada. Apesar de tratar-se de um lançamento exclusivamente independente, circunstância que limitou sua distribuição, o reconhecimento obtido foi muito expressivo, e praticamente unânime no que diz respeito ao público e mídia especializada. Portanto, mais do que um álbum de estréia, foi o grande responsável por introduzir o grupo no cenário nacional, e auxiliou na abertura de várias portas ao grupo. O aspecto técnico também foi deveras satisfatório, já que conseguimos uma gravação e produção bem condizentes com os padrões do estilo, e de acordo com a sonoridade previamente almejada.

Arena Metal: Caro Jeferson Tarzia, qual o fator primordial da TRATOR BR compor totalmente em Português?
TRATOR BR: Três dos integrantes do Trator (Aldo, Amil e Ricardo) tocam juntos há cerca de 20 (vinte) anos, e desde aquela época, já flertavam com o português em outros grupos e projetos dos quais participaram. E como o Aldo, que é responsável pelas letras, já estava habituado em cantar e escrevê-las no idioma, esse processo de composição ocorreu de uma maneira bastante prática e natural, não tendo qualquer espécie de entrave. Por outro lado, sempre achei que pelo estilo da banda pautar-se no Death Metal, o fato de cantarmos exclusivamente em português ressaltou um aspecto particular da banda, e dotado de certo cunho experimentalista, já que bandas de metal extremo cantando em português sempre foram uma exceção à regra. O inglês sempre foi o idioma predominante, por múltiplas razões. Porém, nunca sentimos algum tipo de rejeição, preconceito ou negatividade por termos optado pelo idioma local em detrimento do inglês, muito pelo contrário, sempre houve bastante receptividade por parte de fãs e mídia. E fato é que hoje em dia, já existem diversos grupos nacionais de música extrema igualmente adotando essa premissa, sejam de Thrash, Death, Black, Grind, etc.

Arena Metal: Vocês não acham que isso pode limitar os horizontes da banda para fora de nosso País?
TRATOR BR: Creio que em tempos passados poderia ser um óbice, mas somente devido a questões de mercado e mídia... E atualmente jamais pode ser enfrentado como um fator limitador. No rock e no metal freqüentemente nos deparamos com bandas das mais distintas nacionalidades cantando em seus idiomas nativos, e, em minha opinião, como fã inclusive, sempre foi uma característica que suscitou ainda mais o interesse em relação a estes grupos. Noto que na maior parte das vezes que nos deparamos com um grupo utilizando sua língua mãe para se expressar em sua música, esta opção está atrelada ao intento de ressaltar algum aspecto inerente à cultura e à realidade travada em seus países de origem. O próprio contato com um dialeto desconhecido, fonética, palavras, temas e conceitos líricos abordados, tudo isso se converte num mecanismo peculiar de acesso a essa cultura/realidade. Acho que com o português não é diferente. O mercado também já assimilou essa conjuntura. Não acho que haja mais uma restrição ou rejeição a um artista/grupo pelo simples fato de articularem suas letras no idioma local, ainda mais num mundo globalizado. E se já há uma apreciação pela música executada pelo artista, entendo que essa característica só vem por acentuar ainda esse interesse.

Arena Metal: Cara, realmente o Metal Nacional vem tendo mais reconhecimento pelos bangers, inclusive algumas bandas já tendo a Europa em seu Booking. Mas você acha que os produtores vem tendo o mesmo respeito para com as bandas?
TRATOR BR: Recentemente respondi uma pergunta semelhante ao blog ‘Polêmico Rock’, e ressaltei que na minha concepção, é pacífico que de duas décadas pra cá muita coisa evoluiu. Quem tocou em bandas ou freqüentou shows nos anos 90 pode atestar que as mudanças são gritantes. Houve e há ainda uma crescente preocupação com o aspecto técnico, quando nos referimos à produção e organização propriamente ditas. Acho que as pessoas envolvidas, espelhadas no que se vê nos EUA e na Europa, finalmente despertaram para o fato de que é necessária uma maior profissionalização do meio, para o crescimento e a sobrevivência do cenário como um todo, e isso contribuiu na formalização de uma estrutura de acesso mais sólida, formas de divulgação mais eficientes (além da própria proliferação desses meios) e um tratamento mais digno ao artista.
Mas é óbvio que em meio a esse processo de desenvolvimento, sempre haverá também oportunistas e exploradores, que vislumbram nessa espécie de “ascensão”, uma forma de auto-promoção instantânea, e lucro fácil às custas da dignidade/honestidade de grupos e fãs. Neste ano tivemos um exemplo muito vivo, através do que deveria ser um grande festival de metal sediado no Norte do país, de como ainda existem pessoas despreparadas e mal intencionadas envolvidas neste seguimento. Mas em uma análise geral e contemporânea, acho que situações como essa vem se tornando exceções à regra.

Arena Metal: Cara quando eu vi o nome TRATOR BR em uma determinada Revista de Heavy Metal, corri pra tentar saber que banda era essa, porque elogios não faltaram. Mas notei que vocês tem uma divulgação fraca, pelo menos para o Nordeste, poucos vídeos em Canais de Youtube - Coisas em rede social. Faz parte da ideia da banda se manter assim?
TRATOR BR: De fato, você está certo Hugo. E também não é o único a questionar nesse sentido. Diversas vezes já ouvimos comentários semelhantes, e acho que eles procedem na maior parte. Desde o início das atividades, dada a dificuldade em encontrarmos selos/distribuidoras interessadas em promover o material e o grupo - e também por uma questão de praticidade, para não ficarmos reféns do acaso -, a opção foi por manter o Trator como 100% independente.
Sempre estivemos envolvidos com o underground, de uma forma ou de outra, então a premissa de conduzir o grupo de uma maneira bem “Do It Yourself” sempre se mostrou bastante aprazível.

A situação foi positiva à época, porém, com o decorrer do tempo, a multiplicação das responsabilidades (faculdade, mudanças de cidade, empregos, filhos, etc.) e o cotidiano corrido, gradualmente foram inviabilizando essa tendência, e acabaram por tornar a banda bastante obsoleta no tocante à divulgação e promoção do trabalho.

Infelizmente, é um aspecto no qual seguimos pecando há algum tempo, e é, inclusive, uma das razões primordiais que nos tem motivado a buscar um parceiro para o lançamento e promoção do novo álbum, e que possa exercer assessoria da banda como um todo.
De qualquer forma, independentemente da concretização desses planos, muito em breve estaremos com nossa página no facebook concluída, com a disponibilização do merchan oficial, e outras informações relacionadas à banda, o que ajudará a otimizar esse canal de contato com o público e demais veículos.

Arena Metal: Inclusive a forma de adquirir o CD físico VAAP da banda é complicado. Tem alguns fãs aqui no Nordeste que têm interesse em comprar o CD, inclusive eu, como poderemos tê-lo?
TRATOR BR: No momento, a primeira prensagem do VAAP ainda está disponível em CD, e pode ser adquirida através de contato via e-mail, seja comigo (jetarzia@gmail.com), ou o Amil (amilmauad@gmail.com). O valor é R$ 20,00 (vinte reais), mais o custo referente ao envio.

Arena Metal: Algumas bandas vêm investindo em material de merchandising, visto que o download de áudio agrediu o mercado fonográfico. Como as pessoas podem adquirir algum merchan da TRATOR BR?
TRATOR BR: Complementando o que mencionei na pergunta acerca da divulgação do grupo, o planejamento caminha para que, já no início de 2013, tenhamos disponível alguns itens de merchandising oficial, incluindo camisetas (manga curta e longa), com duas artes distintas. Já no que diz respeito aos downloads, para quem ainda não conhece o som do Trator, basta visitar nossa página do myspace (www.myspace.com/tratorbr) para acessar algumas músicas disponíveis, valendo lembra ainda que o “VAAP” está disponível para download gratuito na internet (creio que basta pesquisar no Google para encontrar os links).

Arena Metal: Bem, vamos as news. Já soube que o segundo material tá pra sair. O que você pode nos adiantar? Quantas faixas? Nome definido? Todo em Português novamente?
TRATOR BR: Bem, não posso antecipar todos os detalhes, senão toda a magia e surpresa vão por água abaixo (rs), mas adianto que serão novamente 11 sapatadas na cara, e todas novamente cantadas em português. O estilo e a sonoridade estão bem mais diretos do que no “VAAP”, mas sem deixar de priorizar o aspecto técnico.

Arena Metal: E os temas a serem abordados?
TRATOR BR: À exemplo do “VAAP”, a maioria dos temas permeia novamente o campo socio-político e o cotidiano do homem médio brasileiro, com uma abordagem bem ácida e sarcástica – meio que já uma ‘marca registrada’ das letras. Já o conceito da capa será uma singela, porém sincera “homenagem”, a todos os protagonistas que figuraram no cenário político deste circo chamado Brasil nas últimas décadas. Uma verdadeira antologia da corruptela nacional em forma de mosaico (aguardem para conferir!)

Arena Metal: Você pode nos dizer algo mais sobre a produção desse material? Tipo Produção, participação especial e a capa (porque sou um grande admirador de artes de capa de CD).
TRATOR BR: A arte ficou a cargo de nosso grande amigo Sandro Nunes, responsável pela capa do VAAP (e que inclusive, já fez parte do grupo em épocas passadas), e que novamente nos presenteou com um exímio trabalho de sua autoria. As gravações ocorreram no RMS Studio, na cidade de Agudos/SP, de propriedade de nosso também inestimável camarada Reinaldo Sanches, o qual, além de conduzir toda a mixagem, produção, e masterização do álbum, nos brindou com horas, dias e meses de paciência budista na conclusão de todos estes trâmites. Além disso, o álbum marca minha estréia na line-up, substituindo o antigo baixista Adriano Vilela, e também o último registro com o Rafael Graziani. Ele se desligou do grupo no início do ano, e desde setembro estamos ensaiando com um novo baterista, Ricardo Fernandes. Pretendemos estar redondos até janeiro próximo, para retornar aos palcos com esse novo front.

Arena Metal: Pela repercussão do VAAP vocês conseguiram alguém pra lançar o material vindouro?

TRATOR BR: Estamos conversamos com alguns veículos recentemente, mas não há nada oficializado. Como iremos custear toda a prensagem do CD, nossa intenção primordial é buscar um parceiro que se encarregue do lançamento e promoção do material exclusivamente, mas que, de maneira paralela, possa também nos auxiliar na parte de assessoria e booking

Arena Metal: Quanto a shows. A banda toca mais em seu estado ou já tem agenda em regiões vizinhas?
TRATOR BR: Por incrível que pareça, a maioria dos shows que realizamos até hoje foi aqui no próprio interior do Estado (Centro-Oeste paulista), onde estamos radicados. Nunca tocamos em São Paulo ou outras Capitais, com exceção de Curitiba (PR) em 2009, ocasião em que o Trator participou do festival Setembro Negro, tocando com Sadus, Severe Torture e Enthroned.
E posso te afirmar sem qualquer demagogia que um dos nossos maiores desejos em relação a tours, além da Europa, é desbravar o Norte e o Nordeste do país. Sempre recebemos várias mensagens de apoio e comentários positivos vindos de pessoas da região, e apesar da distância, temos plena convicção de quão sólida e fiel é a legião de apreciadores do metal e subgêneros que reside aí. Portanto, se houver algum interesse por parte de produtores locais nessa iniciativa, saibam que de antemão já contarão com nossa plena receptividade nesse sentido.

Arena Metal: Para finalizar, gostaria que vocês falassem sobre algumas bandas do Nordeste que vocês admiram. Porque quando a gente fala sobre influência de bandas nacional a grande maioria só mencionam ou bandas velhas, ou bandas do sul e/ou sudeste brasileiro.
TRATOR BR: Bom, acho que sou até um pouco suspeito pra falar sobre isso, pois sempre tive imensa admiração pelas bandas extremas nordestinas. O “Punishment at Dawn” do Headhunter D.C. foi um dos primeiros álbuns de grupos nacionais que ouvi, numa troca de fitas que realizei com um conhecido da Bahia, lá em meados dos anos 90. Desde então, quando me deparo com novos grupos oriundos da região, minhas surpresas são sempre as melhores possíveis. Dos atuais, ou que conheci mais recentemente, entre meus preferidos, posso citar o Facada, Expose Your Hate, Anonymous Hate, Decomposed God, e Baixo Calão, e, dos mais clássicos, o próprio Headhunter D.C., Mystifier, Mercy Killing, Malkuth, Obskure, etc.
Sempre tive a convicção de que essa mentalidade bairrista que impregna alguns seguimentos da cena, e que alguns indivíduos lamentavelmente insistem em difundir até hoje, além de extremamente imbecil e ignorante, presta um enorme desserviço, fomentando ainda mais a segregação, num panorama já repleto de dificuldades e desunião. E por outro lado, os exemplos que citei acima são mais do que expressivos, no sentido de demonstrar que, independente da área geográfica/Estado estar próximo ao eixo Sul/Sudeste, sempre haverá bandas de qualidade inquestionável, produzindo trabalhos irretocáveis Brasil afora.

Myspace

                                                                                             (Por Hugo Veikon)

VÍDEO

 

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