São mais de duas décadas de suor e sangue pelo underground nacional e eis que Hellhammer nos concedeu uma rara entrevista, mas forjada de imenso valor histórico. O alicerce principal do Lord Blasphemate nos enriqueceu de detalhes a respeito do passado e do presente, além de nos deixar com muita atenção para o futuro, numa longa, honesta e agradável entrevista.

Sem muitas delongas, senhoras e senhores, a palavra é dele. Hellhammer, do Lord Blasphemate

Arena Metal: Hail Hellhammer! Inicialmente gostaria de te agradecer pelo tempo a nós cedido e dizer que é uma honra poder entrevistar um guerreiro tão importante do cenário nacional. Você poderia nos apresentar, brevemente, a história da Lord Blasphemate?
Formamos o LB666 no começo de 1992, após passarmos por algumas bandas como NECRASTRATION, DEATHLY SKINNER, SANCTIFIER e outras. Decidimos então direcionarmos nossa atenção para uma banda de black metal que expressasse melhor nossos sentimentos e orientação musical. Na época black metal não era um estilo difundido e não  havia acontecido toda aquela onda da Noruega que levou a uma maior exposição do estilo. Eram poucas as bandas no Brasil, que assumiam essa postura e tocar com maquiagem era algo que realmente chocava (diferente dos modismos atuais). Éramos marginalizados até mesmo em nosso cidade, onde muitos faziam gracejos e boicote à nossa proposta. Lembro que em um dos nossos shows, houve até quem combinasse ir lá para acabar com o evento na porrada, o que para a nossa felicidade (e talvez da deles também) não aconteceu.

Eram tempos diferentes dos de hoje, com poucos e péssimos instrumentos, sem estúdio ou local para ensaio e com uma divulgação baseada em flyers, releases e cartas. Interessante que fazendo esta recordação, percebemos quanto tempo realmente se passou e como as coisas se transformaram. Nosso primeiro trabalho gravado foi uma Demo Reh. intitulada “THE IMMORTAL BLACK HORIZON”, seguida por outras como  “DEVOTION THE TWO PLEDGE OF CALIX AND SWORD OF BLAZE AND  BLOOD”  e  “TEARS OF CRUCIFIED NAZARENE AND THE GOLGHOTA”. Todas gravadas em fita cassete, em um pequeno gravador, durante os ensaios.

Em 1994, juntamos nossas economias, vendemos algumas coisas como televisão e viajamos até Recife para gravar a primeira demo oficial homônima. Um trabalho realizado em uma mesa de 04 canais em sistema DAT. Na ocasião fomos muito ajudados pelos amigos do DECOMPOSED (hoje Decomposed God), que nos emprestaram instrumentos e nos deram condições para que aquele trabalho se realizasse. Com esta demo em mãos iniciamos nossa divulgação e alcançamos um certo reconhecimento, pois ao realizarmos um show em nossa cidade, vimos que muitos estavam ali para nos ver e escutar a nossa proposta. Até hoje esta demo circula em outros formatos naturalmente e ainda tem pessoas que gostam daquele trabalho. Brevemente vamos relança-la em um SPLIT com uma grande banda aí de Pernambuco, que na minha opinião foi uma das melhores bandas do Brasil, mas que permaneceu na obscuridade. Em breve terão novidades.

Esse trabalho abriu as portas para que em 1997 gravássemos nosso primeiro full lenght “THE SUN THAT NEVER DIES...” em parte pelo apoio do amigo Oscar que se propôs para lança-lo, iniciando a criação de seu selo que permanece ativo e atuante até os dias de hoje e onde firmamos uma parceria de mais de 20 anos. Esse trabalho tem um pouco da demo, mas também é diferente em vários aspectos, pois adicionamos diversos instrumentos como violino, flauta, rabeca, piano, guitarras espanholas, vocais femininos e tétricos numa época que isto era impensável e não havia a “onda” de mulheres vocalistas de bandas góticas. Foi um trabalho difícil porque perdemos os outros dois membros originais e tivemos que gravar tudo sozinho eu (Hellhammer) e Tormentor , onde chamamos para vocal o irmão Mal´lak aí de Pernambuco, que cantava em uma banda chamada  DARKNESS EMPEROR (outra grande banda pernambucana por sinal).

Em 2004, com a mesma formação iniciamos a gravação do “A RESTLESS SHELTER UNDER THE REMOTE STAR”, um trabalho a frente de seu tempo e que decepcionou muitos amigos, que esperavam um som na linha do “THE SUN…”. Um trabalho voltado para o que ficou rotulado como “heavy black”, e que particularmente considero um grande álbum, que está se redescobrindo  e sendo melhor recebido pelas gerações mais novas hodiernamente.  Após este trabalho fizemos um hiato temporal, quebrado apenas por alguns shows que fizemos com novas formações até que em 2013 lançamos o “OPHISOPHIA” e logo em seguida o “OPUS GNOSTICCUM SATANNAE”.  Retornando um pouco aquela atmosfera dos primeiros trabalhos e da escola do black metal grego do início dos anos 90 que tanto nos influenciou.

Atualmente estamos trabalhando na gravação do próximo trabalho o  LUCIFER/PROMETHEUS, sem data ainda para lançamento.


Arena Metal:  Ao longo destes 22 anos desde a formação da banda, muitas coisas mudaram tanto no cenário como na forma de registro e divulgação musical. Quais foram suas principais influências à época da formação do Lord Blasphemate e quais bandas você ouve atualmente?  
Lembro que na época, tínhamos poucas bandas em que se inspirar, porque de fato existiam poucas bandas. Por isso, escutávamos muito os pais da criação a profana trindade VENOM, HELLHAMMER E BATHORY. Mas já nos chegava alguma coisa da Grécia (toda aquela escola do black metal que para nós soou muito original e tanto nos influenciou) e alguma coisa da república tcheca como o ROOT (eternos influenciadores) e Masters Hammer. Como também aquelas bandas polonesas da first wave of black metal como KAT. Acho que era isso que orbitava nosso universo musical.  Usamos inclusive tímpanos e vocais limpos na demo, lembro-me,  por influência do Masters Hammer. Não havia toda aquela onda de bandas de black metal norueguesas que soam tão uníssonas e o Mayhem, com seu hardcore era uma piada de mal gosto. E não existiam essa brincadeira dos discípulos de Sófocles do Cradle of Filth e Dimmu Borgir. Não posso deixar de citar também o Poison, Beleth, Ohura Mazda, Ghost Rider, Ostia Podre, Invoker, Mystifier e o Sarcófago. A cena extrema do Brasil  no final dos anos 80 era de dar orgulho e com certeza influenciou boa parte do mundo.

E atualmente???... continuamos tendo muitas bandas boas tanto aqui no Brasil como no exterior. Mas às vezes eu tenho a impressão que falta um pouco mais de “alma” a estas bandas. É algo difícil de explicar. É como se faltasse a essência, um certo tipo de ódio, que a queimasse por dentro. Talvez por isso, eu volte meus olhos para o passado e continue escutando as mesmas velhas e boas bandas... Para você ter uma idéia, recentemente eu estava viajando ao som de uma banda de 1968 chamada de COVEN  que eu sequer sabia que existia. Um puta banda que saiu antes do Black Sabbath e da bíblia satânica de Lavey, mas que é muito foda. A vocalista, por exemplo, está deitada nua em um altar satânico no encarte e isso em 1968. Por isso fico pesquisando bandas do passado. Mas também não gosto do anacronismo de ficar preso em eras passadas e acompanho os novos trabalhos e hordas.


Arena Metal: Voltando a um dos pontos da pergunta anterior: o Lord Blasphemate nunca foi muito de mídia e esta áurea underground os tornou bastante cult, visto que entrevistas de vocês são bem raras. Uma das poucas que me recordo em grandes mídias está presente na matéria da Planet Metal, que cita várias bandas de Natal. Você não é muito fã de entrevistas ou as mídias não lhes davam espaço? Com o advento da internet você acha que o Lord Blasphemate atingiu um maior âmbito de visualização e alcance?
Pergunta difícil e um pouco complicada de responder. Mas vamos tentar dissecar algumas considerações:
Primeiro, realmente não gostamos muito de mídia e isso inclui entrevistas. Gostávamos um pouco na época dos fanzines impressos e mal feitos, mas isso quase não existe mais. Sempre achei uma contradição enorme as bandas dizerem que são underground e ficarem eternamente correndo atrás de veículos midiáticos. Há de se considerar que geralmente as entrevistas são repetitivas (o que não é o caso desta) e perguntam sempre as mesmas coisas e não se interessam em aprofundar o que para nós é mais importante que é o nosso lado filosófico e onde temos mais coisas para dizer, pois o LB antes de ser uma banda musical é filosófica e usamos para isso a música como veículo para falar de coisas que para nós são mais importantes.

Segundo as mídias também nunca nos deram muito espaço mesmo. Não somos interessantes para ela e poucos abrem seus espaços para nós. Nunca saímos em veículos maiores e de maior circulação. Somos muito mais o que você denominou na pergunta, “cult”. Os poucos que se interessam pelo nosso trabalho são pessoas como você que acompanha essa nossa jornada e já tem um “tempinho” no Metal. Acho que a molecada que está aí nem sabe de nossa existência.

Com relação as novas mídias virtuais tão em volga na atualidade, não há o que contestar que as mesmas dão um impulso extraordinário na questão da divulgação. Muito mais do que escrever cartas como fazíamos antigamente. E é preciso saber utilizar esta nova mídia e tecnologia para não virarmos peças paleozóicas de museus. Mas, sinceramente, apesar de sua inconteste importância, eu sempre fui meio arredio a estas formas de comunicação. Para você ter uma idéia eu só vim acessar facebook a cerca de um ano. Antes eu optava por um blog onde eu o usava como meio de vazão de nosso estado de espírito. Eu gosto de escutar discos de vinil, ter contato com livros , revista e papéis. Sintomas de quem já está velho (risos). Gosto das coisas antigas e sempre me acompanhou a sensação que talvez eu não pertença a esta época em que vivamos.  Apesar disto, comecei a perceber que eu estava vivendo em outra dimensão, pois as pessoas comentavam coisas que eu estava completamente alheio e decidi aderir a este mundo virtual. Não podemos negar que tem suas funcionalidades, mas... sinceramente percebo que isso vem desgrenhando e desvirtuando os relacionamentos humanos, nos convertendo em autômatos e nos roubando o que temos de primordial que é nossa humanidade.

Finalizando a pergunta de maneira direta. Somos uma banda de black metal, nascemos no underground e não buscamos os holofotes midiáticos apenas fazer nossa música e principalmente divulgar nossas ideias para um pequeno grupo que estiver disposto a escutá-la e principalmente compreendê-la. São esses os pensamentos que nos nortearam em nossa jornada. Parafraseando Aleister Crowley em Liber vel Al legis: “que meus seguidores sejam poucos e secretos, eles regerão os muitos e os conhecidos”.


Arena Metal: As duas primeiras demos oficiais da L.B ("Lord Blasphemate" e "Devotion the Two Pledge of Calix and Sword of Blaze and Blood") hoje são raríssimas. Quais suas lembranças acerca da composição e gravação delas? Há algum projeto de um relançamento futuro destas tão importantes obras (visto que boa parte das músicas delas não foram regravadas nos demais registros)? 
Faltou ainda você citar a primeira que foi “THE IMMORTAL BLACK HORIZON”, depois a segunda que por isso é chamada de “Two Pledge...” e teve ainda a terceira  “TEARS OF A CRUCIFIED NAZARENE IN THE GOLGHOTA”, no entanto, todas estas foram demos ensaios. A primeira oficial é a homônima. Há um irmão nosso chamado Rogério, proprietário da LUX FERRE,  que se prontificou a lançar este material das demos ensaios. Estamos aguardando. No começo eu era contra, pelo fato do material ser muito tosco. Mas depois aceitei, pelo fato do caráter histórico deste material, como representante de uma época e de uma fase de nossas vidas. Então peço aqueles que as escutarem que o façam sob o espírito do ZEITGHEIST (ou seja o espírito da época).

Já com relação a demo oficial e homônima, vamos relançá-la agora em 2015 (era para ter saído este ano de 2014, como forma de data comemorativa dos 20 anos da demo) na forma de um Split com uma das maiores bandas pernambucanas que escutei (por enquanto vou fazer suspense). Fico até hoje surpreso com o alcance daquela demo, e muitos comentam ela comigo. Fico contente pelo fato dela ter alcançado este status de atemporal e não ter ficado presa ao passado. Por isso decidi lançá-la. Ela foi gravada em 93/94 e acho que, para a época e condições, foi um trabalho interessante.

Hoje muitas gravadoras estão lançando velhas demos tapes, o que me agrada muito, pois minhas fitas estão imprestáveis e não tenho mais onde escutá-las. Então, é uma boa maneira de escutar essas velhas e boas bandas novamente. 

Arena Metal: Particularmente sou muito fã do debut "The Sun that Never Dies...". Houve um grande espaço de tempo entre a segunda demo e este lançamento. Isto foi meio "proposital" ou houve algum outro fator que atrasasse este lançamento?

O “THE SUN THAT NEVER DIES...”  é de 1997. Se olhar bem não foi um tempo tão grande se compararmos aos dez anos que marcou o “THE SUN…” para o “A RESTLESS…” e outros dez anos para o “OPHISOPHIA”.  Mas tem que se levar em consideração as dificuldades que existiam então. Como os estúdios que eram quase inacessíveis (não havia home estúdio, por exemplo), a questão econômica, translado de viagem, questão dos componentes e tudo o mais. O próprio ato de se lançar um CD era um problema , pois eram muito caros e difíceis de ser lançados. Era realmente uma batalha. Fazer música underground no Brasil é um ato devocional, onde você gasta muito. Mas essa é a ideia, quando uma banda UNDERGROUND vem com estória de querer ganhar dinheiro é porque ela devia estar fazendo outra coisa. Por isso nunca cobramos nada de ninguém.


Arena Metal:  No segundo trabalho, "A Restless Shelter Under the Remote Stars", vocês deixaram o black metal rico em detalhes do debut e investiram num som mais voltado para o heavy metal, mas sem perder características importantes com o vocal rasgado e a exploração de sonoridades diversificadas. Voce acha que este foi seu trabalho mais audacioso?  

Com certeza. Tenho a convicção que qualquer banda que seja tem o trabalho de inovar e lançar trabalhos que desafiem a mesmice. É triste escutar uma banda que os álbuns se parecem uns com outros em uma sucessão repetitiva de riffs. Como disse certa vez Mille do Kreator em uma entrevista, “as únicas bandas que podem gravar os mesmos álbuns  são o Motorhead e AC/DC“. Agora isso não quer dizer que uma banda mude seu estilo ou, o que é pior, fique acompanhando as tendências da “moda” musical, como é o caso do abominável Dark Throne. Como músicos e escritores temos que buscar a criatividade e o desenvolvimento, sem perder a essência e as raízes.

O “A Restless…”, foi um disco anacrônico. Ele não foi composto para aquela época e momento, talvez por isso, tenha sido mal interpretado e recebido pelo público (embora seja um dos mais rebuscados em termos de letras e filosofia). Ele é todo temático e conceitual em cima da árvore da vida da cabala hebraica e suas correspondências com diversos sistemas místicos-mágicos-filosóficos, principalmente com a Thelema. Como uma grande música que fosse seccionada em diversos capítulos. Para mim este é um dos discos que mais gosto. Apesar de sua fraca receptividade à época, sabíamos que seria um disco para o futuro. Tanto é que dez anos após o seu lançamento ele já começa a ser melhor percebido e recepcionado, ainda mais no exterior. Recebemos até uma proposta para relancá-lo, mas ainda não aceitamos esta proposta.

Acho-o ainda mais próprio, de uma sonoridade própria que buscamos, do que qualquer outro trabalho e considero-o como um amadurecimento que perpassará por toda a nossa obra. Por exemplo, o “OPHISOPHIA”, apesar de ser um retorno a um trabalho mais cru e direto é permeado de influência do disco em epígrafe e talvez a sonoridade do LB666 seja essa confluência de nuances.

Acho interessante quando em sua pergunta você observou a influência Heavy Metal, pois muitas pessoas se referem a ele como “ black heavy metal “ o que eu acho uma rotulação interessante e curiosa. E de certa forma diferente do que se produz no Brasil e em outros países e o que eu acho mais interessante é que na época em que gravávamos o disco,  muitas das bandas da época caminhava na direção  da onda black metal norueguesa com aquela sonoridade específica tão copiada, ao ponto de haver uma saturação de bandas com aqueles mesmos timbres, acordes e batidas e talvez por isso, o “A RESTLESS…” tenha saído tão discrepante e ficado à margem na época. Mas é com enorme satisfação que recebe cada vez mais pessoas que estão redescobrindo este trabalho e recebendo-o com satisfação.

Arena Metal: Uma característica interessante destes dois trabalhos é que você tocou, praticamente, todos os instrumentos de cordas e teclados enquanto Tormentor executou toda parte de bateria e Mal'lak trabalhou os vocais. Especificamente sobre Mal’lak, por qual razão ele sempre foi considerado convidado nos trabalhos do L.B? 
Quando gravamos a demo homônima, ficamos impactados com a saída de dois membros de certa forma fundadores da banda junto comigo, que foi o  ARMAGGEDON e o BLACK VOCIFERATION e aquela ideia de acabar a banda foi um pensamento que permeou nossas  mentes. Mas o TORMENTOR motivou-nos a seguirmos em frente, pois tínhamos algo para mostrar e contar para as pessoas. A melhor maneira de mostrarmos que ainda estávamos de pé era a concretização de um novo trabalho e assim, é que decidimos compor o  “THE SUN THAT NEVER DIES...” apenas nós dois. Ele na bateria e minha pessoa nos outros instrumentos. Com as músicas gravadas e letras feitas, fomos atrás de um vocalista que encarnasse aquela proposta lírico-musical e o contato com nosso irmão MAL’LAK foi inevitável, pois já tínhamos uma amizade e sabíamos que ele compactuava aquilo que nós tínhamos para mostrar. E foi assim que ele gravou não só o “THE SUN…” como o “A RESTLESS…”. Depois, os descaminhos da vida fizeram com que seguíssemos caminhos diferentes. Mas, até hoje, somos grandes amigos. No LB66 temos uma coisa que é que não existem ex membros. Todos os que já passaram pela horda são sempre nossos irmãos e membros da banda mesmo que no momento não estejam tocando mais. Ocasionalmente, um sempre retorna e destarte, voltamos a nossas atividades como antes.


Arena Metal: Após o segundo álbum houve outro grande hiato e você retomou a banda mas já não contava com Mal'lak e Tormentor (pois este mudou-se para o Rio de Janeiro e hoje até está meio afastado da música mais negra e pesada). Em algum momento houve negociação para utilizar estes dois antigos membros neste retorno?
Nós estamos em permanente contato, apesar da distância. Realmente o Tormentor é quem se encontra mais afastado. Pois, como você já falou o mesmo mora no Rio de Janeiro. Para nossa surpresa, o Mal’lak é quem veio morar aqui em Natal. Mas, infelizmente, eu é quem tive que me afastar da cidade e hoje moro um pouco afastado da capital.  Mantemos sempre contato e é claro que a conversa sobre gravar um disco onde nós nos encontremos novamente é sempre recorrente e espero que um dia possa concretizar esse trabalho. Muito mais como uma forma de realização pessoal minha, pois além de serem músicos com quem gosto de trabalhar, são parte da essência do LB666. Seria bom reunir também com o Znameni, que fez parte da formação original tocando bateria e hoje ele toca baixo conosco e sempre mantemos um contato estreito. Mas, são tantos os empecilhos que as vezes eu duvide se isto realmente acontecerá. Hoje eu estou focado na gravação de um novo trabalho que é o “LUCIFER-PROMETHEUS” onde eu estou tentando amadurecer novas e antigas ideias e apresentar um álbum que seja a personalidade do LB 666 sem cair na mesmice e repetição. Algo que expresse o elevado nível de consciência filosófica e oculta em que encontramos. Seria muito bom que pudéssemos reunir todos esses músicos neste trabalho.


Arena Metal:  O álbum "Ophisophia" remota a áurea do debut e me surpreendeu bastante em vários aspectos. Por você ser a força-motriz do L.B, acha que deste modo é mais fácil de realizar um trabalho que seja mais a sua cara ou os novos integrantes ajudaram neste aspecto? 
Esse é um aspecto interessante por dois motivos. Um deles é que eu, como elemento criador da banda, tenho a inevitável tendência de produzir uma melodia que tenha um aspecto peculiar e uma identidade própria. O que por sua vez não é uma regra, pois existe uma grande diferença entre os dois primeiros discos do LB666, onde muitos pensam se tratar de músicos diferentes.

Acho que os comentários sobre o “A Restless…” ( apesar dele ser um dos meus trabalhos favoritos), me conduziu a compor algo que fosse mais direto e tivesse mais contato com as raízes.

Para mim, o “OPHISOPHIA” é um trabalho mais cru, pouco lapidado, que representa muito mais um grito guardado do que qualquer outra coisa. Talvez por isso ele tenha tantas partes rápidas, como em nenhum trabalho anterior. Mas ao mesmo tempo em coloquei minhas composições nele e foi interessante ver como os outros músicos faziam sua leitura daquelas composições. Então trabalhar com novos músicos faz com que você espere uma coisa e de repente lhe é apresentada outra. Antes de mais nada, é preciso que você esteja com o espírito desarmado, para não rejeitar uma ideia  diferente. Então quando vi as linhas de bateria e vocal com os novos componentes do LB666,  elas soaram diferentes daquilo que eu havia imaginado, mas deixei os músicos fazerem do jeito que eles quisessem e fui gostando do resultado. Veja o exemplo da bateria, que utiliza blast beats, que nunca tínhamos utilizado, soando mais agressivo. O vocal, alterna entre o rasgado (típico da banda) e o gutural que nunca havíamos utilizado, dando àquele trabalho um novo direcionamento.

Então fico feliz quando muitos disseram que lembrava os primeiros tempos, pois foi isso a minha intenção como compositor, Mas também fico contente pelos direcionamentos próprios que os disco tomou , devido em parte ao trabalho dos novos integrantes. Gosto de compor as músicas do meu jeito, mas gosto também que os outros integrantes tragam novas ideias e participem do processo de composição. Não sou autocrático.


Arena Metal:  Pouco tempo após o lançamento do ótimo "Ophisophia", fui surpreendido com o lançamento do EP "Opus Gnosticum Satannae". Este trabalho apresenta apenas três sons inéditos. Eles foram sobras do “Ophisophia” ou o processo produtivo de vocês está mais aguçado?
Ele não foi sobra de um material, foi um novo trabalho composto intencionalmente para ser lançado. É uma coisa meio complicado de explicar , pois muitos não compreendem muito bem. Recebemos a determinação para encerrarmos as nossas atividades com o próximo trabalho, que teria que terminar sob a cabalah algorítmica do seis (6). Para isso, teríamos que gravar um álbum intermediário que preenchesse a lacuna do  “cinco”. De maneira que nosso trabalho definitivo encerrasse o círculo do “6” ( levando em consideração a demo tape como sendo o primeiro trabalho). Devido a essas necessidade nos esforçamos em gravar este trabalho, que pudesse  preencher este quesito e por isso mesmo ele teve que ter  “três”  músicas como representação do ternário.

É um álbum que foi feito para ter esta áurea mais sombria e obscura. Inclusive colocamos nele frequências infra e supra dimensionais, que tem o poder de alterar o estado de consciência para aqueles que compreendem o que eu estou dizendo e que foi inspirado nos rituais transcendentais dos monges tibetanos. Eu costumo definir este disco como a “verdadeira missa gnóstica transformada em música”. Ele começa com um intro onde utilizamos a voz de Aleister Crowley, invocando o primeiro Aethyr e termina com um depoimento raríssimo de Marcelo Ramos Motta, em uma gravação inédita em que ele concede um título mágico ao polêmico Euclides Lacerda. Este fato foi importante e constitui um evento relevante para a história do exoterismo nacional pois na primeira edição do “EQUINÓCIO DOS DEUSES” no Brasil, há um adendo do próprio Motta, afastando o Euclides Lacerda da O.T.O e A.A., ato este que gerou um cisma e uma distorção quanto os rumos da O.T.O no Brasil.

De qualquer forma é como eu falei, é uma coisa meio complicada e que faz parte do universo imagético da banda. Fico inclusive agradecido ao amigo por tê-lo colocado entre os melhores lançamentos de 2014, o que nos encheu de orgulho.


Arena Metal:  Para terminar, gostaria de te agradecer a oportunidade de te entrevistar e deixo o espaço aberto para suas considerações finais.
Só temos a agradecer ao amigo Léo pela oportunidade de expressarmos um pouco de nossas ideias e idiossincrasias. Deixo aqui um trecho de nosso livro que terá título homônimo. STAY WITH NUIT ... HAIL.

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OPÚSCULO DAS  QUIMERAS HUMANAS

( Ou hecatostilo do opróprio ).

            Não existe nada mais cômodo nesta vida, que apoiar-se nos outros e esperar que façam nossas coisas  e resolvam nossos problemas.  Talvez seja por esta comodidade, que há tantas pessoas que acreditam em deuses e messias. Ansiando o momento, que estes virão, e as libertará do mundo de miséria e pobreza em que vivem.  Crer em um messias, é reconhecer a mediocridade do ser e encontrar uma solução cômoda para a impotência da existência humana. Não existe nada mais egocêntrico, do que acreditar que o  homem pode “ser Deus” ou pelo menos unir-se a este. Assim como não existe nada mais incômodo, do que acreditar que não existe um Deus, nem um messias que o libertará e que nós não passamos de alimento para plantas e vermes.

            Se você quer um “Deus”, porque não ser você mesmo seu próprio deus. Se é para fantasiar, o melhor é criar seu próprio universo particular e reinar absoluto sobre ele. A não ser, que sua carga histórica – genética já tenha lhe transformado em um animal de viseiras, ou você já esteja acostumado a só obedecer ou já não poder mais pensar.

            Não existe nada mais repugnante que ver “bovinos” esperançosos, olhando para o céu e esperando um Messias. Renunciando a uma vida real e palpável  em busca de outra utópica  e fantasiosa. Talvez seja por causa desta resignação, que existam tantas pessoas acostumadas com a miséria, em todas as suas faces,  e se deixem levar por sectarismos messiânicos baratos  e charlatões psicóticos, que vendem apócrifos altares de ouro e míticos paraísos celestes.


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por Léo Quipapá

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