(Entrevista por Wanderson Manson)

Arena Metal - Julia, como sendo uma das primeiras, ou a primeira mulher a ser integrante de uma banda de metal em PE, você chegou a sofrer algum tipo de pepreconceito, ou algum episódio em especifico lhe incomodou?

Julia Claudino: Sim, sempre passei por vários momentos onde houve preconceito por eu ser mulher, por gostar de coisas que são consideradas "dos caras"! Mas isso nunca me freiou, porque sempre fiz o que quis. Independente do meu gênero e quando resolvi cantar Death Metal, muita gente não acreditou.
Dai eu fui lá e contratei uma casa, e fiz meu primeiro show. Dai, apresentei minha banda pra galera. Na época, a Bessesen. Não sou sou a primeira mulher a fazer parte de bandas de metal em PE. Mas com vocal gutural, sou a pioneira, sim!
Nunca tinha parado pra pensar nisso! Hugo Veikon me chamou a atenção pra isso, outro dia.
Na verdade, não importa quem foi pioneira ou não, mas fico feliz em ver outras mulheres detonando na cena de PE. Influenciadas ou não pela minha atitude de cantar com vocal grave e tão monstruoso quanto o dos homens.
Só que a gente é mais bonita, graças aos deuses profanos!

Arena Metal - Qual a diferença da cena daquela época para a de hoje em dia?

Julia - Cara como eu sou uma ninfeta jurássica (existe isso???). Vivi várias cenas. O primeiro momento, no início dos anos 90. A diferença era total! Não havia internet, nem celular, ninguém (pouca gente) tinha PC. A comunicação era muito diferente, havia apenas 3 formas de consumir som: show, disco ou radio/TV
Nessa época, nós comprávamos discos e degustávamos numa loja, algumas músicas do mesmo para decidir se íamos ou não levar. Nos encantávamos com as capas.
Escrevíamos para fã clubes e revistas especializadas. Colecionávamos muita tranqueira de papel... hehehe
Eu morava em Caruaru/PE e fui aos meus primeiros shows de metal. Depois me mudei pra Recife e passei um tempo sem frequentar os shows de metal.  Tava vivendo o momento Reggae, Mangue Beat, Pop Zona Sul. Não q eu não gostasse mais de ouvir som. Continuava curtindo meus sons, mas fui surfar, namorar, ser adolescente.
Dai sacava som na Rua da Soparia e ia em alguns eventos Bar do Pirata, IPSEP... comecei a trocar meus vinis pra CDs.
Veio a internet. Depois teve o Dokas e começou a rolar mais shows, Armazém 14, Armazém Pirata, Bar do Metal... já tínhamos mudado o modo de ouvir som. Tudo já era virtual, baixávamos muuuito! Kkk
Acho q vivi transições demais na cena. Sobre comportamento, e levando pra o lado "mulher de ser"... éramos bem poucas.
Cansei de ir a shows que só tinha eu de mulher, ou outros, onde tinha apenas eu e as duas namoradas dos caras que topavam ir a um show. Só eu no pogo.
Também já voei com os coturnos na cara de uns pregos porque tentaram impor "seu território", achando que eu era patrimônio porque tava no mosh. Sem exceção, uma péssima ideia, tirar uma headbanger sangue nos olhos como eu, na grande desse jeito.
Passaram vergonha.  Qualquer um, passa, vai por mim! ;)
Mas isso mudou bastante! Acho foda a presença feminina e interação.

 

Arena Metal - Você acha a mulher sofre algum tipo de preconceito hoje em dia no meio metálico?

Julia - Eu acho que estamos vivendo um momento muito louco que mistura necessidade de auto afirmação e ao mesmo tempo de alienação em massa e as pessoas estão muito confusas. Eu acho muito "babilônico" o cara viajar em ser retrógrado, usando bandeiras conservadoras e separatistas. Eu não admito ser submetida a porra nenhuma!
Então eu vou lá e faço o que tem que ser feito, digo o que tem que ser dito e conquisto meus espaços de acordo com meu esforço. Mas é claro que a gente é o tempo inteiro comparada, medida e visada.
Foda-se, isso!
Tenho uma letra que fala do lugar onde eu vivo e sobre nadar e viver com tubarões. Ela chama-se "Shark Skin".
Eu sou musicista. Componho minhas letras, tenho coisas a dizer. Não sou só uma mulher que faz música que era pra ser só "dos caras". Apesar de eu me sentir bem, em explorar uma personagem sensual no palco e nas minhas letras usar de fetichismo e elementos de estímulos sensoriais, para compor a atmosfera da banda.
Os músicos da minha banda também. Todo mundo tá numa vibe de sintonia, curtindo o feeling da banda, trabalhando juntos. Me tratam como igual.
Mesmo sendo gentis, não tem isso de precisar ser ou não cavalheiro. Eu também sou gentil com eles.
Faço o meu trabalho. Trabalho com eles. Vamos tocar para públicos de 80, 90% Homens.
Estou preparada desde que nasci.

 

Arena Metal -Quando falamos da historia do metal Pernambucano, você acha que a presença feminina tem  recebido seu devido reconhecimento?

Julia - Como disse, as mulheres tem participado e apoiado mais a cena, indo aos shows e comprando produtos das bandas. Divulgando, consumindo... São poucas produtoras, mas no NE tem umas gatas que produzem. Em Natal, em JP, Campina... Acho foda as monstras que tocam instrumento, também, porque ai, é pau a pau! Tem mulher que toca mais do que muito cara... A participação aumentou, mesmo e é em todas as áreas do negócio da música dentro do underground.
Amo ver as meninas nos shows. Me sinto representada pela maioria delas hoje. As meninas não são mais posers. Elas sacam som, curtem o som e não pedem pros seus namorados deixarem a banda por causa delas. Hehehehe.  Hail, girls!
E não precisamos de reconhecimento. A gente só está no pedaço, mais presente!
A gente pode ir a qualquer espaço e pra se destacar,  trabalhe! Só isso.
Homem que não trabalha, também não é reconhecido.
Não quero ser reconhecida por ser mulher. Quero ser reconhecida por que faço meu trabalho direito e consigo botar um espaço pra banguear comigo.

 

Arena Metal - Agora você esta na Revenge to Betrayal, o que você pode adiantar sobre esse projeto?

Julia - A Revenge to Betrayal, é um projeto que partiu de João Junior (Ex integrante de uma banda local de Death Metal), que tinha algumas músicas prontas e me convidou pra cantar. Quando vi o projeto de João, eu fiquei muito instigada, porque era algo livre.  Experimentável.
Ele me deixou confortável pra absorver o que ele tava afim de fazer e eu amei. Batemos as ideias de cara. Nos gravamos as 6 músicas em 3 tardes.
Todas as letras e músicas do 1o EP, que pretendemos lançar na nossa estreia, dia 11 de junho no Estelita (comemoração de 10 anos da R.U.S.), são de João Júnior, com exceção do que modificamos juntos em estúdio.
Testamos vozes limpas e sobrepostas pra criarmos a atmosfera de cada música e eu curti pra caralho o resultado. Ficou bem aberto.
É um som rápido e bem executado, que mescla meu vocal predominantemente death, com alguns elementos melódicos, mas também passando pelo thrash metal.
Estou compondo, algo mais temático e os caras tão pegando os riffs certos, juntando tudo pra continuarmos agora juntos e construir algo novo e exclusivo, com a pegada e assinatura da Revenge to Betrayal.
Nossas influências nas letras vão flutuar entre práticas BDSM, escatologia, perversão, fetichismo, patologias psico sociais e violência.
Não queremos ser corretos. Queremos louvar os tipos saudáveis de perversão e falar sobre o poder da mente, em geral. As influências musicais vem dos clássicos, passeia por prog, blues, death, thrash e heavy metal. Inevitavelmente não soaremos old school.
Somos antigos na parada. Mas estamos fazendo algo novo! Velho, na verdade, sou a única amadora! Para mim, é uma honra, tocar com esses caras.
Tocar com um cara que é referência p mim, no cenário metal, como Zeka Aranha (ex Cruor) e meu brother Rivelino Mendes, que tira a chinfra que manja, com seus lindos brinquedos. Fora a conexão que tenho com João e suas ideias. Suas composições me fazem achar que estou no lugar certo, com a banda certa, com os caras certos.
Quero convidar a todos para conferirem no dia 11 de junho, nosso pocket de estreia, no show de comemoração de aniversário dos 10 anos da Recife Underground Scene!
Nos estamos preparando algo bem fodido pra quem estiver lá poder conferir.
Valeu, Arena Metal!
Sempre juntos, manolos! <3

por Wanderson Manson

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