(Por Ismael Guidson)

Arena Metal - Uma honra poder estar conversando com vocês da Abismo, uma das maiores bandas do cenário alagoano e agradeço o tempo cedido conosco do Arena Metal. Bom, vocês estão lançando o segundo álbum de estúdio, intitulado “SÓRDIDO”. Fale-nos um pouco sobre ele, novidades, diferença em relação ao primeiro, etc.
Todas as músicas do novo disco foram gravadas e mixadas, num processo que se iniciou em fevereiro e só foi concluído, em outubro. Gravamos praticamente tudo em casa, exceto a bateria, que foi gravada em um estúdio de maior porte. As músicas do primeiro disco, embora tenham alguma unidade sonora, foram feitas de forma irregular, com muitas mudanças de componentes na banda. Quase todo mundo que tocou conosco de 1999 à 2007 tem composição no álbum de 2008.

Já no segundo, que lançamos em dezembro do ano passado, tentamos criar uma identidade para a formação atual. Algumas diferenças são básicas, facilmente perceptíveis: os riffs estão mais rápidos, a maioria das músicas traz algum tipo de solo e os bits estão acelerados. Nesse sentido, acabamos nos aproximando um pouco mais do thrash metal, mas sem deixar de utilizar levadas mais grooves, já que nossa bateria é muito mais técnica do que rápida. Também abrimos espaço, em algumas músicas, para elementos que não apareceram no disco anterior, como piano e cordas. Também houve uma mudança de foco em relação às letras. Não totalmente, mas a abordagem variou. As letras do primeiro disco eram muito mais 'militantes' e 'politizadas', mais diretas, quase panfletárias. No segundo disco não há um abandono desse viés, mas há uma tentativa de trabalhar um pouco mais com a relação som/sentido das palavras, por isso os temas aparecem um tanto indiretos.

Arena Metal - Sabemos que teve um show aberto para o lançamento do novo álbum em Arapiraca. Como foi a aceitação do público com as novas músicas e as críticas?
Foi tudo muito bacana. Arapiraca é uma cidade em que a cena para o rock’n’roll está bem aquecida, sempre vejo notícias de shows por lá, eventos mantendo uma regularidade, bandas sendo criadas etc. Tocamos no Rock Pro Cultura, que é um evento mensal, aberto ao público, em uma praça e tudo mais. Esse era o cenário que queríamos. A sensação de tocar em um evento aberto ao público é muito instigante. As respostas foram muito boas, o público interagiu com nosso som, adquiriram alguns dos materiais que levamos para divulgação e muita gente entrou em contato com a banda posteriormente. Havíamos tocado por lá em 2005, mas num contexto bem diferente, com repertório cheio de covers, agora pudemos mostrar um pouco do que somos e propomos.

Arena Metal - Quais os planos de promoção para o 'Sórdido'? Pensam em promover fora de Alagoas?
Abismo é uma banda indisciplinada pra papo de turnê! (risos) Na verdade, até temos vontade, mas há um entrave: todo mundo na banda trabalha. Se por um lado isso poderia facilitar nosso deslocamento, por outro o tempo acaba ficando escasso. Mas toparíamos tentar organizar algo e divulgar um pouco o som fora daqui.

Arena Metal - E em Maceió, como tem sido a divulgação?
Já fizemos dois shows muito legais em Maceió, em contextos bem diferentes. Tocamos no dia 18/01, no Quintal Cultural, junto com Rosas Negras, Oldscratch e Misantropia. Não foi necessariamente um “show de lançamento”, nos moldes do que fizemos em 2008, para o primeiro disco, mas foi um show em Maceió, junto a bandas de uma galera que convivemos e respeitamos, então não deixou de ser uma festa pra isso. O segundo show foi no dia 06/02, no Grito Rock, também um show aberto, assim como o evento de Arapiraca, e com uma plateia bem numerosa. A interação com a galera foi tão foda, que em determinado momento já não se diferenciava muito público e banda. Essa sequência de apresentações foi bem gratificante. Lembro que entre 2011 e 2012 chegamos a ficar quase todo o ano parados, sem estímulo para tocar, pois, para a gente, era sempre um mais do mesmo. Lançar um novo trabalho autoral faz muita diferença neste sentido.

Arena Metal - Você citou que à banda já possuiu várias formações desde a sua formação inicial em 1999. Tem alguém que está com você desde o inicio? E você acha que a banda atualmente está em sua melhor formação?
Eu e o Ivalter Júnior, baterista, formamos a banda juntos e permanecemos até hoje. Começamos a tirar um som entre 1996 e 97, mas só viemos pensar em banda depois de uns trabalhos de inglês que fizemos na escola. Sobre ser a “melhor formação”, acho que seria injusto com a galera que não está mais na banda, mas que contribuiu em composições, divulgação etc. e que temos bastante consideração, desde Michel e Igor, que passaram pouco tempo com a gente, até Mário, Alexandre e Denílson, que permaneceram conosco por anos. Óbvio que gosto da formação atual, do que estamos conseguindo fazer musicalmente e mesmo nossas sintonias pessoais, de morarmos perto etc., mas prefiro que não seja rotulada como nossa “melhor formação”

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Arena Metal - Allan, você é o “cabeça” da banda, mas nas letras todos participaram escrevendo o disco ou foi apenas você?
Na verdade eu nem sou tão o ‘cabeça’ assim, viu? Temos, internamente, várias formas de liderar o lance. Nas questões burocráticas do “Sórdido”, por exemplo, eu participei muito pouco – e até pouco tempo estava devendo dinheiro à galera da banda! (risos). Das letras, eu fiz todas neste segundo álbum. No primeiro disco ainda dividi a autoria de duas letras com o Mário Bayle (em "Break" e "Sweet melody"), que tocou conosco por alguns anos. Mas, no geral, eu assumo esta parte. Até pretendo abrir um pouco em trabalhos futuros, mas nos primeiros lançamentos autorais senti um pouco a necessidade de ter a banda em tudo. Já na parte instrumental, de riffs e ritmos, toda a banda participa, mas Hudson e Anderson, os guitarristas, tomaram a frente da maioria das composições do “Sórdido”; o Ivalter, baterista, atua meio como um maestro do lance todo, porque além de fazer a parte do instrumento principal dele, opina e orienta nos outros lances com embasamento, porque ele é músico profissional há anos, desde criança.

Arena Metal - Vocês mesmos que produziram e mixaram tudo? A banda sondou algum produtor pra dar um “up” a mais no disco?
Foi tudo feito por aqui. Como disse, a gravação que está no disco foi iniciada em fevereiro de 2013 e terminou cerca de um ano depois. Apenas a bateria foi gravada em um estúdio grande de Maceió, além dos pianos adicionais, que Ivalter gravou em um piano do Espaço Cultural da Ufal. Já o baixo, as guitarras e as vozes, gravamos em casa, com uns equipamentos que adquirimos pensando nisso. Quem mixou e masterizou nosso disco foi o Diego Monteiro e ficamos muito satisfeitos com o resultado. Até cogitamos, quando estávamos gravando, a possibilidade de colocar um Ross Robinson da vida para masterizar nosso trampo, mas além do orçamento apertado, também levamos em conta que com uma pessoa próxima mixando e masterizando, teríamos mais liberdade para dialogar e intervir nos rumos, fazer esse acompanhamento como tem que ser.

Arena Metal - Já que falamos muito sobre o segundo álbum, quais faixas você indicaria para mostrar a nova proposta da banda?
O disco todo, obviamente! (risos) Mas pensando em novos elementos com os quais trabalhamos, de repente indico "Human?", que foi a primeira música que compusemos depois do primeiro disco. O bit dela se aproxima de uns metais mais tradicionais, além de rolar o uso de solos mais longos e do piano. Minhas preferidas são "Insult", "Dissolve" e, principalmente, "Affection", por conta da velocidade na execução, mas também gosto das mais cadenciadas. "Only the Face Changes 2" é uma nessa linha, um som um pouco menos frenético.

Arena Metal - Como um dos melhores vocalista de Alagoas, nos fale sobre suas influências.
Agradeço por estar na sua lista de "melhores vocalistas"! Essas indicações de influência sempre soam incompletas. Provavelmente vou dizer uns nomes, depois me arrependerei de alguns, lembrarei de outros que podia ter incluído. Mas, no geral, para gutural e vozes para o metal, Max Cavalera virá a frente da lista sempre, por ser uma referência nossa. Gosto de vocalistas versáteis, que também trabalham com a melodia, como Phill Anselmo (Pantera), Dez Fafara (Coal Chamber) e Corey Taylor (Slipknot), mas também me agrada certa brutalidade mais "pura", como o uso feito por Randy Blythe (Lamb of God) e Alex Camargo (Krisiun), apesar de esses dois também mostrarem habilidade na variação de voz. Mas minhas referências para voz, assim com para letras, não estão apenas no metal. Comecei ouvindo Legião Urbana e o rock brasileiro dos anos 80, o que me fez valorizar demais as letras. De uns anos pra cá me dediquei a explorar o rock'n'roll da década de 60 e 70, lance de se alfabetizar mesmo. Também escuto algo de blues, samba, jazz... aí não tem como ignorar a genialidade de uns Novos Baianos, ou Mutantes, ou Secos & Molhados, só pra ficar nos mais conhecidos. Minha lista se encerra com Chet Baker: eu deixaria fácil essa vida de berros e brutalidades para ter um timbre e afinação como a que esse cara tinha. (risos)

Arena Metal - De uns meses pra cá, tivemos grandes shows em Maceió e isso me surpreendeu, já que aqui é raro se ver isto. Você que está presente na cena maceioense à bastante tempo. Cara, como você vê esta pouca quantidade de shows realizados na cidade em relação aos anos passados? Existe falta de união, falta incentivo do público para shows menores ou algo tipo? Teve uma renovação no público?
Acho que as coisas estão confusas há anos em Maceió. Não é possível ser categórico em tudo, mas dá pra fazer umas constatações. Se tem público? Sim, tem bastante! Quando rola show aberto, gratuito, sempre há uma lotação. E, sim, também acho que está acontecendo uma renovação. Nossos últimos shows em Maceió, que foram abertos ou com ingressos bem acessíveis, lembro que deu bastante gente nova, uma galera até abaixo dos 15 anos que Abismo está comemorando. O problema é que nem sempre rola uma disposição em pagar o valor do ingresso para os outros shows que movimentam a cena, que servirá como manutenção para shows futuros, já que ninguém ganha grana com show de metal em Maceió. Quer dizer, quando grandes bandas colam por aqui, alguns até saem de suas tocas, mas para shows locais, valorização do som autoral de nossa cena, a situação continua complicada. Mas vai melhorar.

Arena Metal - Bom encerramos aqui, mas sempre gosto de deixar o espaço aberto para palavra livre. Você poderia falar pra galera que ainda não adquiriu o CD “SORDIDO”, como fazemos pra adquirir o cd e também os outros materiais do merchandising.
Estamos com umas cópias no estúdio de tatuagem do Yrlan Lins, a MCZ Ink. Pagando R$ 5, leva o cd e um adesivo. Futuramente pretendemos deixar umas camisas por lá também. Antes, os lances ficavam apenas conosco, mas isso complicava pra cacete, porque todo mundo na banda trabalha e não tem como se deslocar para vender os discos. Nem sempre lembramos de levar material para os shows, o que vive atrasando nossa vida. No geral, basta entrar em contato conosco no Facebook ou algo similar, que tentamos viabilizar uma forma de fazer esse material circular: facebook.com/abismo99. É só chegar junto!

 

[FACEBOOOK]

por Ismael Guidson

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